MERCADO ACTUAL - A minha abordagem é orientada numa perspectiva de mercado e muito menos artística. Esta minha postura foi já muitas vezes criticada na minha curta experiência na área de design, sendo acusado de análises demasiadamente "metálicas" e de ter uma estratégia de actuação pouco de acordo com o panorama artístico e cultural português.
O panorama nacional e internacional para jovens designers é extremamente interessante e aliciante. Assiste-se actualmente a um "boom" por parte de todas as entidades da nossa sociedade, desde empresas, passando por autarquias, até ao pequeno comerciante.
Um dos indicadores de procura está directamente relacionado com o número de inscritos nas provas específicas, com a diversidade de locais de ensino e na sua segmentação. A segmentação é o maior sintoma de maturidade e sedimentação e total implementação de uma determinada actividade. O maior exemplo será a medicina. O design e o marketing directo são as duas actividades de marketing com maior índice de crescimento no mercado actual.

THE DAY AFTER - Com o panorama atrás descrito, as possíveis actividades para o estudante ou finalista de design são bastante diferenciadas. Como oportunidade de trabalho, podemos considerar, entre outras, as seguintes:
Projecto Pessoal - Para iniciar um projecto pessoal não são necessários recursos muito sofisticados. Uma mesa, uma cadeira, papel vegetal e lápis fazem milagres nas mãos de um designer. Não garante uma situação financeira estável.
Atelier de Design - A passagem por um atelier, com algum prestígio, será talvez a melhor forma de estabelecer condições para mais tarde abraçar um projecto pessoal. Poderá assim acompanhar projectos com alguma dimensão envolvendo tecnologia adequada e recolher ensinamentos de alguém com mais experiência.
Agência de Publicidade - Actualmente, face à grande qualidade dos ateliers de design existentes no País, as agências de publicidade encaram o design como um factor de importância vital na sua estrutura. É de facto uma alternativa de trabalho. Exige uma grande capacidade de resistência ao trabalho e a situações de pressão.
Empresas - Alguns sectores do tecido empresarial português justificam a existência de designers nos seus quadros. Desde a cerâmica, passando pelos têxteis, calçados etc. No entanto, a grande maioria recorre ainda a "importação de ideias" do estrangeiro ou mesmo de empresas concorrentes. As empresas que recorrem a serviços de designers obtêm por vezes excelentes resultados e isso provoca o incremento da procura. A aposta num projecto de design deverá ser integrado num estratégia global de marketing. A má preparação das empresas, ou melhor dos seus quadros, enleada pelo grande "boom", julga suficiente uma boa aposta em design: um bom catálogo é suficiente para obter o tão desejado sucesso comercial.
Leccionar - "Se tens entre 23 e 30 anos e pretendes uma vida calma e segura, inscreve-te. Garantimos o vencimento ao fim do mês ". Seria a frase mais indicada para cativar professores de Educação Visual. A situação actual da educação em Portugal não é nada convidativa. Pelo que o único argumento plausível para uma aposta numa carreira académica será a da estabilidade e segurança. Correm, no entanto, sérios riscos de cristalização. Mas se acrescentarmos "... e tens uma vocação especial para dar aulas", então não hesitem em seguir a carreira da docência. Existe, no entanto, uma situação positiva, que será a de uma solução mista. Ter uma garantia, entenda-se estabilidade financeira, e com um esforço adicional encetar um projecto pessoal e rapidamente validar a sua viabilidade. Geograficamente, à semelhança de todas as outras actividades, verifica-se um enorme crescimento de oferta de serviços de design em Lisboa e Porto e uma grande ausência no resto do País.

A MINHA EXPERIÊNCIA - BUSINESS IN DESIGN - Numa perspectiva de mercado (ou economicista), classifico o design como uma prestação de serviços. A prestação de serviços tem a vantagem de depender da qualidade da produção humana. Ou seja, não existe compra e venda de materiais ou equipamentos, à semelhança de automóveis ou electrodomésticos. Não existem comparações de características técnicas ou preços. O facto da produção ser perfeitamente viável com poucos meios e depender em exclusivo da capacidade de cada um (Q.I.) abre excelentes perspectivas globais de trabalho. O factor concorrencial é, assim, à partida, igual para todos e equivalente em todo o mundo. Digamos que Portugal, ou antes os designers portugueses, uma vez que os factores tecnológicos não são determinantes, estão em pé de igualdade com os restantes designers de todo o mundo.
As necessidades de design existem desde sempre, sendo até há muito poucos anos abordados por arquitectos, eng. civis, decoradores, pintores, escultores, etc. Mas sempre numa perspectiva autodidacta, ou melhor não preparados academicamente para o efeito. Existe a necessidade de criação das fronteiras do design, ou seja do seu espaço de actuação. Em Portugal, nos anos vinte, o papel de dentista era assumido pelo barbeiro. Com o tempo, a actividade do design irá assumir o protagonismo que merece.

O ATINGIMENTO ETC - Um dos aspectos mais preocupantes em projectos de design tem a ver com o atingimento. Ou seja, quando o projecto atingiu os objectivos pretendidos quer em termos de estética (criativos), quer em termos comerciais, quer nos aspectos técnicos. Por atingimento estético entenda-se que o designer acredita no projecto, a parte comercial terá que estar salvaguardada e tecnicamente o projecto terá que ser execuível.

A INVESTIGÇÃO - Os computadores originam e potencializam situações de causa / efeito ilimitadas, que motivam a continuidade na investigação dos trabalhos a serem executados. Aqui, é necessária alguma sensibilidade comercial para que, se o tal atingimento existe, não haja mais alterações ou maior empenhamento, que tornam o custo da prestação do serviço de tal forma elevado que nenhum cliente o pagaria. Investigue-se, mas nada de procurar a perfeição, que ela não existe.

A PRESSÃO - A pressão, o stress, a ansiedade. São factores que, se pretendem singrar na vossa carreira, irão ser os vossos companheiros de trabalho. Considero os jovens designers pouco preparados para ambientes de pressão.

A CRIAÇÃO DE NECESSIDADES - Design significa, teoricamente, coisas bonitas. É muito fácil criar necessidades no cliente. Estimular a necessidade, uma sinalética adequada ou uma brochura interessante ou mesmo um cartão pessoal com classe. Estabelecido um certo grau de confiança com o cliente, e essa confiança adquire-se com trabalho e qualidade, e poderão efectuar-se projectos com grande dimensão e impacto.

A MENSAGEM - Acertar no alvo, ou seja perceber exactamente o que o cliente pretende e transportar a mensagem para o projecto, é fundamental. É talvez o passo mais importante e mais difícil no atingimento. Difícil porque a linguagem utilizada, por vezes, não é a mais objectiva e clara. Difícil porque na maioria dos casos o decisor não é apenas um. Difícil porque o próprio cliente não sabe exactamente o que pretende e aí recorre-se ao famoso método "heurístico" - executa, mostra, não é bem isso, altera, mostra de novo, até que se obtém o tal atingimento que atrás foi referido.

AS LIMITAÇÕES - "Por favor, não utilize mais do que duas cores", "cuidado com o papel" ,"mas esse acabamento não é caro?". Frases típicas que limitam o trabalho do designer e que irão ouvir bastante.

João Paulo Aires nasceu em Cernache do Bonjardim em Outubro de 1965. Após uma passagem pela Alemanha, onde frequentou a escola primária, efectuou o ensino secundário em Coimbra. Licenciado em Informática de Gestão, especializou-se em marketing durante largos anos a trabalhar na Siemens S.A. Em Janeiro de 1994 assumiu a gestão da Quatro Cores Design e E. Aires Design.

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