A linguagem que eu falo em mim mesmo não é do meu tempo; está exposta, por natureza, à suspeita ideológica; é pois com ela que tenho de lutar. Escrevo porque não quero as palavras que encontro: por subtracção. E ao mesmo tempo, esta penúltima linguagem é a do meu prazer, mas não a minha fruição: esta só pode aparecer com o novo absoluto, pois só o novo abala [infirma] a consciência [fácil? de modo nenhum: em nove de cada dez vezes, o novo é apenas o estereótipo da novidade].

Num espaço escolar, como o nosso, o confronto de ideias e opções estéticas, deveria ser a palavra de ordem, para elevar a produtividade e a diversidade cultural dos alunos. Ao contrário de uma conciliação aparente que não conduz, professores e alunos, senão a um beco de conivências e silêncios. Da necessidade de um espaço comum, onde estas, e outras ideias, seriam discutidas, ou pelo menos expostas, e de onde a crítica não estaria ausente, surgiu esta publicação.

Integrada no plano de actividades para 95/96, da associação de estudantes da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, esta publicação em formato de revista, é vocacionada para a expressão artística nas suas diversas àreas: Sobretudo, pretendemos que a revista signifique um espaço de informação e reflexão, expondo os processos e problemáticas das artes, dos criadores às suas criações, de docentes e discentes da escola; Que revele, não uma unidade, mas distintas consciências e comportamentos aformais na FBAUP; Procuraremos, por outro lado, a colaboração de entidades exteriores ao nosso contexto escolar, fundamentada em interesse circunstanciais; Desejamos, ainda, que a revista motive a ponderação e a crítica, dos colaboradores ao leitor; Este número um, introduz e catalisa várias destas intenções.

Re-apresenta [alhures perdidos] um prazer e uma fruição: os do texto.
Do texto crítico ou analítico, do poético ou narrativo, do gráfico ou informativo, do texto que busca e do texto que mostra.

De Sade: o prazer da leitura provém evidentemente de certas rupturas: códigos antipáticos entram em contacto; são criados neologismos pomposos e irrisórios; mensagens pornográficas vêm encaixar-se em frases tão puras que poderiam ser tomadas por exemplos de gramática. Como diz a teoria do texto: a linguagem é redistribuída. Ora essa redistribuição faz-se sempre por corte. São traçadas duas margens: uma margem obediente, conforme, plagiária [do seu estado canónico, tal como foi fixado pela escola, pelo seu uso correcto, pela cultura], e uma outra margem, móvel, vazia [apta a tomar quaisquer contornos], que é sempre apenas o local do seu efeito: o ponto em que se entrevê a morte da linguagem. Estas duas margens, o compromisso que elas encenam, são necessárias. Nem a cultura nem a sua destruição são eróticas; a fenda entre ambas é que se torna erótica. O prazer do texto é semelhante a esse instante insustentável, impossível, puramente romanesco, que o libertino aprecia no fim de uma maquinação ousada, ao fazer cortar a corda que o suspende, no momento em que atinge a fruição.

Vítor Almeida

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