O acto isolado de ouvir música num "walkman" corresponde directamente à tentativa de alienação do espaço ou do universo envolvente. Essa alienação transporta-nos para outro universo que é concomitante, por exemplo, com uma vontade de pintar. No fundo, acabam por ser duas formas de alienação que formam a idiossincrasia de um indivíduo.
Se aliarmos a tudo isto a escrita, começa então a formar-se uma impossibilidade - a de transformar uma ideia em matéria; e esta impossibilidade é tão mais visível quão maior for a soma dos meios de expressão usados. É claro que para tentar levar à transformação de uma ideia em matéria, basta um só meio de expressão. No entanto, este acto não pode ser tomado como sério; só depois de vestirmos a pele de sísifos é que o acto pode ser tomado como genuíno.
Na busca de uma "pintura genuína", existe uma busca do acaso, sem discutir aqui se este existe ou não. Na realidade, essa busca é a da representação do irrepresentável - assim, caso fosse possível atingir tal objectivo, "a ideia" seria a mónada da pintura e a reificação possível, isto se aceitarmos "a ideia" como o acaso. Ora, na impossibilidade de uma reificação completa, já que existem (ou só existem) ideias e pensamentos impossíveis de materializar ou transmitir sem ruído, sem mal-entendidos, transfere-se o objectivo da "pintura genuína" à procura do acaso para a tentativa de representação do irrepresentável; no fundo, trata-se de duas impossibilidades com pressupostos diferentes, em que a primeira parte de um pressuposto discutível na sua existência, e a segunda de um pressuposto concreto na sua existência.
Nesta "pintura genuína" encontra-se, em quem a cria, um solipso mas não um solipsista, porque se é verdade que a pessoa que cria se entrega a um prazer solitário, não é menos verdade que essa mesma pessoa não acredita somente em si, nem vive só para si; acredita em impossibilidades e vive para a pintura. Pode dizer-se que esta pintura é egocêntrica e subjectiva, mas não em relação a quem a faz. Sim, é egocêntrica em relação a si própria, porque vive e existe só por si e para si, sendo aquilo que é sem pretensões, perspícua e não satisfazendo nunca o pretendido por quem a cria; e é subjectiva na sua linguagem, já que não possui um código que satisfaça uma lógica de comunicação conceptual.

Espírito
Aluno do quinto ano de Pintura na ESBAP/FBAUP

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