
Sinto-me afectado, por saber que estas folhas virão a ser um espaço comum. Confesso que é receio. Entretanto, o meu medo é pela certeza com que aqui vou errar, e do quanto isso é necessário. Ou, falando por mim, não universalizando, me é necessário. Não me consigo livrar desta terrível sensação de que poderia ter sido diferente. E como consequência resultaria diferente; melhor, ou talvez acabava por se reduzir, no seu momento de afirmação diferente, a isto mesmo: produto de vontades individuais, minimamente compatíveis, unidas neste isolamento colectivo. Que dá azo a orgulhos egocêntricos de razões pouco tolerantes, mas mantendo sempre uma recta postura "antipartidária", com os outros. Mas, num qualquer momento, podia ter gerado em mim a energia necessária para mudar o rumo a tudo isto. As desculpas arranjam-se, e algumas com uma certa nobreza, mas a verdade é que conduzi o meu fluxo energético para outros lados, e também é verdade que verti grande parte em coisas que até esqueci, em jeito de desperdício na comemoração da inconsequente riqueza da minha juventude. É natural... a liberdade. Conduzo-me por aí à louca. Mas controlo! Não tenham dúvidas! Eu também sei que vivo na irrealidade, que é a realidade construída para me divertir. O que não consigo imaginar é o ponto de origem, o centro desta ficção, onde existe "real". Se calhar, cabe bem aqui o ditado "anda meio mundo a enganar outro meio". Então isto é um engano (o erro), e não por metades, mas de corpo inteiro, e a capitais na capa. Porque, afinal, há orgulho! Não tenho vergonha de participar! É preciso experimentar e é preciso criticar. Necessário é a crítica basear-se na experiência e dar-lhe uma consequência.
Não vale a pena falar de cor. Andar enganado e enganar ouvidos virgens. Não se deve confiar na segurança empedernida das figuras, nem na mascarada fragilidade das personagens. Vão enfiar o capuchinho para trás do pavilhão. Vão empinar cervejas para o bar da escola. Vão imputar a Geometria Descritiva para o Belas Artes. Vá lá! Alimentem-se mais um bocado. A miséria. O ser estudante. Alimentem a estrutura que vos cerca, que vocês são as Duracel, e o tempo é coisa que não vos falta. E há sempre quem agradeça que vos mantenham na estupidez muito mais tempo. Eles? Os lá de cima? São todos bons rapazes! Que todos os males nos viessem de gente tão parecida connosco! Mas, sem dúvida, que percentualmente eles são melhores, mal comparando com o grupo, daqueles de nós, que também secundariza o ensino. Eu sei que é preciso dinheiro. Eu sei que não vale a pena lutar contra determinações políticas, porque os azuis, em quem os verdes podem bater, batem em nós, que ficamos vermelhos. Ou então somos amarelos, mas isso foi outra história. Valha-nos os Erasmus! Dizem-nos que isto aqui é porreiro. "E até vão ficando por cá!", diz a má-língua. Os nossos dizem que por lá é que é bom, mas trazem saudades. Sim, porque não vale a pena levá-las, que eles lá fora não sabem o que isso é. Nós cá ficamos a saber o mesmo. Ficamos no nosso fado. A Amália, o Ataíde de Melo (que é muito mais charmoso), "(o único) professor de Pintura" Ângelo de Sousa (que já diz os lá lá lá lás, muito melhor), o Dario Alves (a quem de igual modo agradecemos o passado que não nos diz nada), o Joaquim Machado (que, não fora o bigode, e lá está transformando a cigarrilha em micro, dava um jeitinho para a música, fazendo-se acompanhar à guitarra portuguesa pelo professor Moura Pacheco). Podíamos andar aqui às voltas no coreto, que a Amália tem as costas largas. Mas o que me interessa é saudar os que por um acaso genuíno sentem que produziram em consciência, e que isso lhes valha por muitos anos. E queria também saudar os que embarcaram nesta nau que se fez zebro, que eu, metendo as mãos à consciência, ajudei a afundar. Invejo-lhes a coragem. Sim, porque naufragar ao largo, implicou marear. E sabem lá os monstros que a gente criou, os piratas e os que primeiro abandonaram o navio (os ratos). Os ventos que sopraram em trovoadas e se fizeram em brisa, tão leve como uma antiga vergonha. E os chuviscos que se transformam em canivetes, lâminas afiadas que agora brandimos como estandartes do nosso erro, chegados de novo às areias da nossa ilha dos amores.
| Rui Ferro Aluno da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto Frequenta actualmente o quinto ano do curso de escultura |
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