
Desenganem-se com o pretensiosismo de tal titulação a tão breve ensaio, pois adiante não constará o paradigma do imediatismo de um proveito acomodado, mais será uma reconfortante invocação de mais nobres valores. Atentai, pois.
Desde 1779, quando a rainha D. Maria decretou a autorização para ser criada a Aula Pública de Debuxo e Desenho, até à recente inserção na Universidade, a secular existência da nossa escola está marcada por figuras ilustres do mundo artístico; assim, denota-se com desagrado a insenção com que se tratam os mais variados assuntos com ela relacionados. Constato, infelizmente, a actualidade do preâmbulo do Decreto n. 2 de 26 de Maio de 1911, referente ao estado da já extinta Escola de Belas-Artes do Porto: "... os antigos dirigentes levaram a sua incúria muito longe, não procurando sequer, pela coordenação de elementos já existentes, mas dispersos e mal proveitados, construir um ensino artístico que {...} pudesse vir a pôr-nos entre as nações mais cultas, em lugar que, sob esse ponto de vista, nos compete". Percebam que agora o Estado exime-se deste género de pressões; assumamos essa incumbência.
Reportando-me ao nosso tempo, relativamente não à base programática {que espero ver também reformulada}, mas à pedagogia efectivamente exercida, faço reconhecer o carácter especulativo das cadeiras teóricas na sua interacção com as práticas e a falha das últimas, de ordem tecnológica, na constante recapitulação de "conhecimentos inadquiridos", sendo neste processo legado, depreciativamente, para última instância o projecto pessoal. Tiremos vantagem da situação: do que a certa altura se afigurava como a inoportuna repetição de meros exercícios, de reinterpretações extemporâneas de cunho marcadamente academizante e minimamente criativas, pôde vir a confirmar-se, se a elas se respondeu com a disposição necessária, a sua vertente formativa, numa mais assente visão das potencialidades dos meios experimentados e numa resolução de nós mesmos, enquanto artistas, no confronto com eles. Não se entendendo que o caminho imposto seria o mais indicado, mas sim que desde o momento em que nos consideramos parte integrante desta escola, é de importância capital, para a sua e nossa existência condigna, o contínuo confrontamento com o que nos é disponibilizado.
Quanto à solicitude de um projecto pessoal: redundemos a eficácia de uma presença intelectual, sujeição a que nem todos se impõem, num projecto consistente de uma pertinência actual e, com certeza, praticável. Afigurando-se a obra, simultaneamente, como arguido e crime nesta processologia, considerando sermos nós a "mente criminosa" que o cometeu, convém por demais reconhecermos as leis, não a sua vigência, para assim advogar a sua e a nossa legitimidade. A constância do julgamento ao que nos compele a cumprirmo-nos não pode servir de razão superior à nossa perseverança. Legislemos, pois, a nossa própria conduta estética, mas de forma traduzível. Para tal, ser o cúmulo da informação do melhor ensino artístico de Portugal {cientes da inquestionável, embora negligenciada, representatividade da nossa escola} pois a exigência de estarmos versados em matérias curriculares e extra-curriculares, por imposição própria ou inerente à escola, assim o dita. Estamos neste ponto plenamente ensaiados para expor a solidez da nossa versão. É decisiva esta última resolução, súmula de todas as outras, pois representa efectivamente a primeira. De tudo que nos foi instruído, ou por nós apreendido, em proporção à nossa honestidade e empenho, corresponde a importância da nossa versão.
Confio-vos para meditação, como a amigos, a resenha da possível tangibilidade do nosso mundo: não seria o meu intuito praticar Nosomântica, nem fixar padrões normativos e casuísticos, que só serviriam, por impenitência, para embargar a criação. Mas correndo o risco de em ambas cair, deixo esta admonição que escrevo qual crisógrafo: Que a arte só deve ser a intercorrência do desfruir e usufruir de toda a arte vantajosa e ser constantemente desinsofrido e imitante das reminiscências que uma introversão dela nos dará. Cabendo ao próprio silogizar o discernimento da honestidade das suas opções, consequentemente salvaguardando-se do error e do erro.
Termino com estas quatro máximas para que
1 - a vantagem do título "Como Tirar 20" seja ele cumprir-se em nós mesmos,
2 - ponhamos de parte a arrogância, que julgo ser própria de quem cria, e sejamos alunos uns dos outros,
3 - sirvam-se da Escola,
4 - exponham-se.
| José Filipe Gonçalves Oliveira ex-aluno da ex-esbap e fbaup curso de artes plásticas - pintura - ano da graça 1989 - 1995 |
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