Pelo sol eu diria que é um Domingo, ou outro dia contendo uma solenidade qualquer. Os miúdos envergam farpelas tipo domingueiro e de acordo com o calor que faz. As calças da moda experimentadas, estreadas, sempre pouco próprias para a brincadeira, brancas, debaixo do sol; uma camisa de mangas curtas, que não gosto, que fica justa e mostra o contorno do corpo, salientando a barriga, as costas, enfim tudo. Fico encostado a um canto pensando, ou arranjando um pensamento para que no caso de alguém me dirigir a palavra ter coisa para dizer. Os outros vêem as coisas como eu. As traseiras da casa que fomos visitar, abrem--se ao exterior, abrasa-se, para um pequeno parque de árvores e enlevos de suspiros a ares de verão, tudo muito verde; perdemo-nos imediatamente, até que alguém inventou que a França era já ali, e uns de nós quiseram voltar para trás; fui em frente, fiz esperar os adultos, que me ralharam por andar perto da água, por saltar dentro do barco, um barco podre, de fundo de madeira podre. Depois perdemos a memória do que se poderia fazer com tanto espaço, corremos para arranjar brincadeira melhor, coisa nova, nada, enfim, lanches em casa de estranhos, sempre a fome pelos pastéis de nata de Alcácer do Sal, mais umas meninas que tocavam ambas piano, acho que muito mal, mas eram o orgulho da família. O dia estava cheio de sol. Faço um esforço, não sei o que faço ali, com aquelas calças que nunca gostei, sou uma fotografia velha, minha de mim, dentro da minha cabeça, talvez na cabeça dos outros se lhes recordar, comparo os risos, as vozes e consigo reconhecer tudo e todos menos o sítio onde não existe relva e liberta o chão o cheiro da humidade, o húmus escuro. A casa é de uns amigos dos pais de alguns de nós, estamos ainda todos, andamos pelo nosso pé, ainda; nunca se fará tarde, estou desejoso de voltar a casa e envergar uns calções que gosto, uma camisa com muitas ramagens sobre um fundo azul cobalto. Depois era o caminho para casa sentado ao colo de alguém, no banco da frente de um Volkswagen 1306, o cheiro a borracha dos estofos, os arranques nervosos do carro, a estrada com manchas de água, tudo ilusão, não existe água nenhuma, estou cheio de sede, com sono, vou acordar em casa. Agora um salto até à rua muito fresca, o fim do dia, memórias de muitas despedidas, de estradas negras, de sorrisos, de conversas sobre os meus maus modos, um desastre na estrada real, tudo coberto de pó; um pó branco que se mistura com os resultados da memória, incapaz de memorizar mais que isto. Os cães a ladrar, vou ao quintal e levo o meu punhal de madeira, desço pela fresca escada de mármore, ouço uns passos, sei que são meus, invento dois ou três inimigos, desfaço-os e vou ver com cuidado os cães a ladrar, os cães têm nomes, lembro-me de todos, fartam-se de ladrar. Estou a jantar em casa de familiares de estranha relação, não sou eu quem eu sou, ali sou outro, o senhor do castelo, ameaçado pelo dia que se segue cheio de sol, mas a roupa apertada de domingo. Amanhã vou andar todo porco, nas traseiras do quintal grande, dar caça às galinhas, enrolar-me no balouço, invento mais uns personagens, lavo as rodas do carro de pedais e misturo na confusão da carpintaria do velho que bebe até cair. Depois corro pelo beco do carapau e descubro uns desenhos que as chuvas do inverno fizeram no salitre de um muro que ainda existe com outros desenhos. Fui até ao armazém da porta castanha, voltei para trás, são outros terrenos por onde não passo, mora lá um tipo que me vai bater na cabeça, um Toninho, talvez o Teleca Taralho, não sei bem. Enrolo-me no baloiço e vejo as mulheres da casa de lida a cortar cabeças às galinhas, que sei que são muito estúpidas. Gosto de ver as galinhas de cabeça enfiada nos funis de alumínio esperneando sem cabeça, penas e sangue. A velha a quem morreu o marido mando-a à merda, os outros que moram lá atrás dou-lhe com pedras, tenho as costas quentes pelas mentiras que vou contar, ou então fujo de casa se me batem. Arranjei mais amigos que não existem, só um é de verdade e caminho nas suas costas, é o velho Sultão, um cão muito grande e todo preto. O Pélé morreu-me na memória de velho. À tarde fujo da loja com baratas no bolso, e vou bater nuns miúdos da minha idade, obriguei que me comprassem umas botas de futebol para dar pontapés aos outros e tenho a cabeça cheia de histórias para quando voltar para casa. Dou umas voltas no jardim e cuspo no velho das varinhas, corro à rua direita e compro um gelado de cor vermelha presa num cubo de gelo, os amigos mudam-se com grande velocidade, já não sei quem são. Respiro o ar dos escorregas dos dias que continuam e faço de conta o dia todo, só sei construir coisas aguçadas e contundentes. Às vezes vamos todos ao circo, que é assim: o patrão do circo carregou o semblante, e mandou com um gesto decidido, puxar as cordas que seguravam o pano da grande tenda. Subiu o pano até que as cores se encheram de céu, até que se não avistasse outra coisa na planície que não fosse a grande tenda de circo. Arrumaram os leões em lugar próprio, os anões em caixas de fósforos, os gigantes, de acordo com o seu tamanho, estavam a remendar os rasgos de outras actuações; os curiosos, de pé, espreitavam o circo que mexia, sem saberem que já era espectáculo. Na noite desse dia penduraram-se as luzes de diferentes cores e abriram-se as portas às gentes que vinham de longe assistir a coisas nunca vistas; enquanto entravam, os ajudantes apertavam cordas para que as redes não faltassem às quedas dos voadores e acrobatas, alguns pedintes juntavam-se às luzes da noite, ao falso luxo do circo, à magnitude da grande tenda remendada vezes sem conta pelos gigantes. Havia um palco recuado do espaço central iluminado por um foco de outros tempos, apontado para um tocador de piano que dava ordens à música para que esta saísse sem enganos, acompanhava os números com canções diferentes sabendo todas ao cheiro da bebida. Entrou o patrão e anunciou as habilidades dos animais doentes, dos cansados sorrisos dos palhaços, dos sérios números dos mágicos com ajudantes previamente sem cabeça, das cabeças voadoras vindas de outras terras, das curiosidades da grande feira de verdades "ver para crer", dos meninos prodígios, das senhoras com cães de cabelo longo e principalmente dos artistas que voavam nos altos trapézios, defrontando o sorriso da morte. No lado de fora, era a noite mais fria; existiam contudo umas barracas de pinturas parolas que decoravam os decotes das meninas das tendas dos tiros, que por sua vez aqueciam os certeiros com beijos nos copos de bebidas espirituosas, havia o cheiro dos feirantes que têm filhos sempre mais crescidos que da última vez, trabalhando com o único sentido de alimentar a gesta. Compravam-se pipocas, e outros doces de açucares misturados com o pó da vida que os pés levantam. No lado de fora havia sempre alguém que espreitava pelo buraco dos sem dinheiro a magia do assunto. Por fim aborreciam-se e iam embora; tomavam aeroplanos para uma cidade mais fria, onde as pessoas andavam com grossos agasalhos em voltas no pescoço. Além do mais, do sítio onde espreitavam só viam os pés dos que sentavam nos balcões. O circo mostrou todos os números de sempre, lembrando os circos passados, até que a noite se esvaziou e deixou para trás a vida sem palmas nem sorrisos. Podiam-se ouvir no escuro os rugidos dos leões, as tosses dos palhaços doentes, as cabinas de dormir que abanavam com suspiros. A vida continuava no dia que seguia a esta noite, numa cidade qualquer que ficasse na direcção a que os caminhos do circo costumam levar. Na manhã do dia seguinte, com o sol disposto a iluminar os trabalhos dos homens, desfizeram-se as tendas, os nós das redes, as jaulas dos animais, os aparelhos complicados de saltos de acrobatas. Encaixotaram os objectos de trabalho e arrumaram os animais nos cantos da grande camioneta, sempre sob o olhar atento do patrão, que vigiava cada movimento com uns olhos negros pendurados nos fundos buracos que viviam debaixo das sobrancelhas exaltadas. Agora todos eram empregados das arrumações, a mão-de-obra que lançava as facas e engolia os fogos das noites de aplauso era a mesma que edificava a estrutura do circo, que desmanchava o circo. Tudo era depositado no corpo de uma grande camioneta com escritos pirosos de tintas de cores esmaltadas pelo berrante de serem letras de circo. Nas paredes do grande veículo viviam milhares de registos com o significado da missão. Por fim quando tudo era calculado dentro dos espaços das arrumações, quando tudo era votado ao sono que permitem as viagens, quando as gentes paravam para o suspiro aliviante, quando os punhos enxugavam as testas cobertas de pérolas de água, entrava o patrão na cena com uma caixa de metal oxidado pelo tempo das andanças, e chamava pelos nomes vulgares das pessoas que trabalhavam na companhia. Fazia-se uma bicha de pagamentos de acordo com os dinheiros existentes na caixa de metal. Agora todos subiam com contas a deitar à vida, ao patim onde existiam bancos de correr, no espaço destinado aos artistas em viagem. Nos dias que seguiam, até à próxima paragem havia tempo para pensar nos gastos que se fariam na cidade seguinte.Três dias durou a viagem, três longos dias pelo país de curvas, em estradas de pós vários de várias terras diferentes, durante três noites se acampou ao lado de pequenos povoados que tudo dariam para ver um número de luzes e estrelas de segunda. Havia quem desse sorrisos aos rostos das crianças, quem na companhia não esquecesse nunca a sua profissão; os palhaços, vestiam meia farda, e entravam na farsa da vida de ser palhaço e iam descobrindo os rasgados sorrisos dos meninos que trabalhavam. Depois, quando os meninos acordavam, já a viagem levara o circo para longe. Três dias durou a viagem, três longos dias pelo país de curvas em estradas de pós vários de várias terras diferentes. No meio da viagem o circo ficou mais pobre. Com o calor, os leões começaram a perder os dentes, e por fim um deles morreu. Fez-se um enterro de leão, numa terra escura que nunca vira leões, a um leão que nunca conhecera a terra clara onde habitam os leões. Estes eram bichos do frio, habituados a mimos e doces de chicote, às dentadas forjadas pelo encenador dos felinos. A viagem continuou até ao dia em que a estrada ficou cortada pela cidade seguinte. Hoje vou arranjar uma guerra, os da minha rua contra os outros. Somos nove, só nove. os outros vinte e tal. Já combinámos a táctica, chupamos uns gelados, afiamos as flechas e partimos orgulhosos em calções sujos, de pernas borradas pelo pó da vila, vamos a caminho do canavial. Encontramos a velha figueira, alguém sobe lá acima e confirma que os outros já lá estão. Batemo-nos e o dia canta vitória; o índio do Bairro da Caixa deu-me na cabeça com um bolbo, uma raiz de cana. Ao fim do dia as janelas enchem-se de gritos, de mães com nomes de filhos na boca, ouço um ralhete ao entrar em casa, odeio a pescada, está a dar a Gabriela. No fundo do Verão existe um rio bolorento, que tem parado ao seu lado um moinho de maré; caiu na desgraça do tempo, as paredes ruíram. Os barcos grandes eram baleias, cacei-as às dezenas, tenho os pés no lodo vermelho, espetado pelas canas dos foguetes de ontem. O Jaime conta-me muitas histórias e tem uma loja cheia de relógios, de objectos cujo nome é sempre o mesmo, penso nas línguas de perguntador que servem para lavar o maquinismo de dar horas. O Verão continua e acho que não vou ao jardim zoológico, faço de conta que acredito, ou talvez acredite, dizem-me que o hipopótamo cheira mal. Já estalam, já rebentam as festas, no coração das histórias sobre o padre pólvora, o barulho dos círios. Não sei quem são os círios. Têm filhos, acho-os tristes, diferentes da minha alegria, se calhar não existem. Tenho os braços mais compridos que as palavras e o sol é branco. As paredes reflectem a luz branca, as fábricas erguem-se na vila, todas brancas, movimento de operários de lá para cá, coisas escritas nas paredes, passagem para Lisboa num barco a nadar num rio bolorento. O sol branco levanta-se no cais das tainhas, faz um calor danado, e vamos nadar no rio vermelho até à ilha das melancias, depois dou uns sopapos na cabeça do libélula, nadamos outra vez para ver quem aguenta até à ilha dos ratos. Passa o vapor carregado de gente; gente vinda de Lisboa e mostramos o cu. Reconhecem-me e vão fazer queixa lá em casa. À noite insultámos o homem dos frangos que bateu na mulher e nos filhos; um dos filhos está connosco e chama filho da puta ao pai. No fim do Verão fumo um cigarro dado pela irmã gorda do rato, anos antes tive a mesma impressão debaixo de um calor qualquer, um nó no peito, um aperto na garganta, expeli o fumo e encontro-me com o mal que me falam em casa. Depois eram as viagens para Setúbal, e cresce a maldade no liceu com outros amigos, tenho tantos amigos, que ninguém se conhece, uns com cheiro a Sado outros a rio vermelho. No Jardim do Bonfim como as sandes que me dão em casa, secas na lancheira como a cortiça nas árvores. Se continuássemos a andar encontraríamos por certo caminhos desconhecidos, alguém disse, ali já era a França; rimos todos e construímos umas setas, uns arcos, fizemos uma guerra, escolhemos os bons e os maus, tenho penas dos maus. Tenho um lagarto verde ao colo, acho-o triste, sei que posso falar com os animais, com qualquer animal. Acho que sei tudo e não gosto de andar na escola. Amanhã vou levar o lagarto para a escola e ponho-o à observação de toda a gente na aula de biologia. Já o amanhei e congelei-o em segredo no frigorífico que fazia barulho durante a noite. Tem tripas e tudo, tem um ar triste. Um adulto, professor, agradece com um ar enojado. Digo que tenho um bolor azul guardado no bolso, enraizado num naco de chouriço que ficou no escuro durante uns meses, ninguém agradece. O verão é branco, o sol é branco e trouxe a moda de fazer barcos; faço-os às dezenas, corto os dedos nos formões, e lembro-me de quando me cortava nas lâminas de barbear, a sensação é a mesma, o sangue a pulsar na boca do golpe. Gosto de cortar os dedos, de mansinho, depois chupo o sangue todo; é salgado o meu sangue, e tem um sabor a rio bolorento. Só gosto de coisas que os outros não gostam, lá na rua fresca de verão nenhum dos miúdos quer provar do meu sangue, ninguém gosta...

José Miguel Gervásio
Nascido a 28 de Outubro de 1968 na cidade do Montijo.
Licenciatura em Artes Plásticas - Pintura da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.
Pintor no desemprego...
...por conta própria.

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