
A proposta inicial era fazer uma entrevista "non-stop", gravar tudo, mas pessoalmente não consigo concordar com isso. Falei com o professor nas últimas duas ou três semanas, e gostei de conversar sobre a escola e sobre design, mas parece-me mais correcto formular questões que possam conduzir esta conversa através de temas mais pertinentes.
MÁRIO MOURA: Pegando na velha questão da relação da escola com o exterior, e mais concretamente na viabilidade e no sentido que os trabalhos que executamos adquirem "lá fora", existe um fosso, uma distanciação incómoda que nos deixa engasgados perante problemas clássicos de como é que um determinado trabalho funciona numa gráfica...
HEITOR ALVELOS: Sinceramente, acho que há coisas mais importantes num trabalho do que a maneira como ele funcionaria numa gráfica. É evidente que isso é importante, estamos num curso de Design Gráfico e devemos ter alguma noção de como o trabalho deverá ser ou não exequível, produzido em série, etc.
Pelas conversas que tivemos anteriormente, a ideia que ficou foi de que a escola é mais útil para desenvolver mecanismos de pensamento...
Muito mais isso, muito mais isso... de facto, o trabalho, numa perspectiva prática, de execução e viabilidade, embora importante, é uma componente que não exige cinco anos de aprendizagem, e que, se calhar, vai fazer muito mais sentido que seja aprendido e ensinado através de um contacto real. Ou seja, a partir do momento em que uma pessoa funciona em colaboração com as gráficas; a partir do momento em que se começa a ter trabalho a ser produzido e que vai existir, de facto, "lá fora". Nessa altura, faz sentido que esses problemas se ponham.
Esses problemas devem ser abordados em termos curriculares, mas não de uma maneira exaustiva. Acho que há coisas bem mais importantes, no sentido em que chegamos lá fora e não temos possibilidade de as discutir, não temos possibilidade de as aprender ou experimentar, ou pelo menos, não temos tanta facilidade.
Como você dizia, passa muito mais pela discussão de ideias, pelo confronto de maneiras de abordar certos problemas, por maneiras de pensar.
Até certo ponto, em termos de pensamento, a escola acaba por funcionar como um "piloto-automático". Quando entrei para aqui andava no ar aquele estilo Milton Glazer, anos 60, o cartaz do Bob Dylan, I Love New York, etc., depois veio a transição para o Neville Brody, há uns cinco anos. E agora, de repente, temos outro estilo e outros tiques...
O que me preocupa de facto, é que, por vezes, encontro um tipo de situação em que as pessoas de alguma maneira se concentram sobre a forma das coisas, sobre o estilo que está presente, mas sem uma preocupação em compreender os antecedentes e a pertinência das coisas. O porquê da utilização de determinado estilo, o porquê da forma que os trabalhos adquirem e essencialmente a abordagem às referências, de todas as cargas que estão por trás disso. Algo que não temos consciência aqui dentro. "De onde vêm as coisas?", "o que está por trás?", "o que é que isto nos diz?". Se calhar, sei lá, inconscientemente, tudo faz parte de uma bagagem cultural que chega até nós - não pode chegar embalada e pronta a consumir. Temos a responsabilidade de compreender um pouco melhor tudo o que está presente no Design e é invisível para o vulgar consumidor.
Apesar de tudo não me consigo libertar da sensação de que aqui na escola nos limitamos a "passar o balde". Como naquelas aldeias do Paquistão onde se fabricam cópias de armas. Todos os anos aparece uma arma nova. Todos os anos se fazem moldes das peças e todos os anos se fabrica uma arma igual à que foi trazida de fora. É a sensação de que criamos um design estagnado, "auto-semelhante".
Não tenho a certeza que isso seja 100% verdade. Acho que apesar de tudo há uma procura de estilos.
As pessoas preocupam-se em desenvolver uma personalidade dentro dos trabalhos, parece-me é pouco fundamentada. Poderá haver uma pesquisa, mas é uma pesquisa desordenada.
Bom, pela minha experiência como aluno, acho que até é uma pesquisa extremamente ordenada. Mas é uma pesquisa, por assim dizer, "pronta-a-vestir". É feita através das "Graphis" ou "Emigre"...
Essas experiências são importantes, não se pode deixar de passar por elas. Acaba por ser meu receio que, às tantas, essas realidades acabem por reclamar a verdade para si mesmas, e tudo o que não cabe ali, não faz sentido.
Falta um bocado a perspectiva que as coisas devem ter. É natural que as pessoas se envolvam com as imagens de contemporaneidade. E, de alguma maneira, se sintam estimuladas por aquilo que são marcas típicas de um certo estilo em vigor neste momento.
Agora, nós, no ponto em que estamos, temos que criar um pouco mais de frieza em relação a esses estilos, precisamente porque temos a obrigação de compreender e contribuir para o que quer que venha a seguir.

Falando agora da FBAUP, e do "mal" que a acompanha, que ninguém sabe ao certo onde está. Sentimo-nos todos um pouco perdidos entre os "bodes expiatórios" que são a falta de interdisciplinariedade, a falta de convivência entre os vários anos, o conselho directivo, os professores, a associação de estudantes...
Sim, o mais natural é as pessoas procurarem bodes expiatórios, aliás, é humano fazê-lo. Mas parece-me mais saudável questionarmo-nos sobre o que é que individualmente podemos fazer, para que a situação na escola melhore.
É unânime a ideia de que a escola atravessa um momento particularmente pouco criativo e dinâmico, embora sinta alguma dificuldade em comparar com aquilo que se passava antes de eu aqui entrar. Mas de qualquer maneira, acho que não corresponde às expectativas das pessoas.
Em relação a certas críticas, penso que são infundadas, nomeadamente as instalações. Acho que não são más e que melhoraram muito com a saída de Arquitectura, há mais espaço.
Fala-se também da falta de diálogo entre professores e alunos. De que os professores não ouvem os alunos e que, por outro lado, os alunos não sabem como se posicionar em relação às figuras de autoridade. Quanto a mim, o problema está de facto numa falta de empenho e entusiasmo, quer por parte dos alunos, quer por parte dos professores.
É óbvio que a escola não está a funcionar a 100%, longe disso. Por exemplo, é um contra-senso, existir uma sala com computadores a funcionar e o acesso ser limitado. Haveria talvez a necessidade de contratar alguém que coordenasse essa secção, não apenas a nível pedagógico mas que estivesse apto a solucionar os problemas que se põem nessa área.
...talvez a criação de uma cadeira específica?
Sim, sempre defendi essa ideia. É de facto necessário inserir a informática, de uma forma clara, no currículo de Design, aliás, não faz sentido outra coisa. Tenho conhecimento de que há certos problemas a nível oficial, ou seja, são necessárias uma série de aprovações para se fazer uma reforma curricular. Agora, isso não é desculpa para que as coisas não se resolvam, há maneiras de se contornar os problemas.
Continuo a pensar que esta escola é muito desaproveitada. Vejo coisas à minha volta que não compreendo. Pessoas que estão mortas por acabar o curso e sair daqui, quando estão a perder oportunidades excelentes de reflectir sobre os trabalhos, e estão num círculo de pessoas que partilham dos mesmos problemas e preocupações.
Depois vemos "lá fora", no "mundo real", a experimentação e investigação que, acho, deveria acontecer na escola. Não sei se isso é bom ou mau, ou se os resultados são estimulantes, mas é um facto. Talvez por isso, constatamos que em Portugal não existe nenhuma personalidade muito forte em termos de Design Gráfico.
Sim, mas "lá fora" é muitas vezes o cliente que dita as regras.
Eu tenho uma opinião sobre isso, embora sem pretensões de querer resolver tudo, admito outras situações, mas uma coisa que me parece muito importante é o problema do - não me agrada muito esta palavra, nem sei se vale a pena utilizá-la, mas pronto - o problema do brio profissional. Há coisas que de facto não se pode abdicar, e se nessa altura a culpa será do cliente que está a entrar num campo que não é o dele, e demonstra desconfiança em relação a situações que o designer domina muito mais, este também terá a culpa a partir do momento em que aceita essas regras de funcionamento. E uma coisa que eu não vejo a acontecer é a recusa de trabalhos - "tudo o que vem à rede é peixe" - compreendo que as pessoas têm que "ganhar o pão", mas acho que era possível manter um equilíbrio. Isso também se deve à falta de especialização. Neste momento um cliente vai ter com um designer não porque reconheça que este "funciona" melhor na área do trabalho que pretende, mas simplesmente porque o conhece.
Mas não acha que isso deveria começar aqui na escola? Concorda com este tipo de ensino que distribui pelos diferentes anos as diferentes vertentes do Design, sem esse tipo de especialização?
Sim, concordo que uma pessoa tem de passar por todos esses tipos de linguagem, seja qual for a área que depois desenvolva. Claro que há problemas a nível curricular, mas penso que existem mais problemas com cadeiras teóricas, que acabam por não responder àquilo que se pretende. Acho que a maior parte delas estão mais voltadas para as artes plásticas, existe uma diferença quanto às referências históricas das artes gráficas que não é prevista nos actuais programas.

| Heitor Alvelos nasceu em Viseu em 1966. Mestrado em Comunicação Visual, School of the Art Institute of Chicago, USA, 1992. Licenciatura em Design de Comunicação, Escola Superior de Belas-Artes do Porto, Portugal, 1989. Frequentou o Departamento de Ilustração do Royal College of Art de Londres, Inglaterra em 1988. Foi bolseiro do programa Fullbridge, SAIC (USA), SEC e JNICT (Portugal). É assistente na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto desde 1989. É membro da Graphic Design Association (USA).
Em 1994/95 integrou a equipa de organização do congresso ICOGRADA Portugal'95 e co-comissariou/organizou a exposição internacional "O Fax é a Mensagem". |
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