Com que se parece este monstruoso efeito o da forma? Que nos atrai e nos repele? A que podemos incensar e também temer!
GOMBROWICZ: Parece-se com o homem. O homem é um "criador" de formas todas elas falsas se não erro e todas elas inevitáveis uma vez criadas perante o outro. Mal eu apareça o outro tem-me sou seu prisioneiro se não impuser a melhor forma capaz de detê-lo que se precipita já sobre mim munido de um direito que é absoluto é o da sua consciência solipsista. O das suas taras. O do imprevisto que ele constitui na sua solidão consciente ou não. Lúcida ou não. Ele arrasta manias que o prefazem ou desfazem ou o fazem para me julgar tanto quanto aparece. Julga-me ou regista-me eu posso modificá-lo se lhe impuser uma forma que o detenha na sua indeterminação que lhe dê forma. Que o mimifique e o mistifique e o modifique como um sujeito que o altere numa direcção imponderável surpreendente pode ser a sua modificação. Se conseguir chamar-lhe bêbado ele poderá rir-se ou então chorar ou mesmo embebedar-se só em imaginação com a sugestão da minha influência. Se o empurrar ele ficará furioso ou mesmo colérico ou extremamente confuso e mesmo débil. Se o cumprimentar ele pode imitar-me ou deitar-me mau-olhado ou fingir simplesmente que não repara ou finalmente assustar-se. Porque o mesmo pode ele fazer-me impor-me uma forma levar-me a ser ou então anular-me se eu deixar ou não puder salvar-me a tempo.

A linguagem tecnocrata impõe-se pela competência e a arte é arrastada tal. Ideais de precisão iguais a record sem qualquer humor. . .
A linguagem do tecnocrata é invenção colectiva a do artista é invenção caprichosa sem qualquer compromisso com a eficácia a não ser mágica mas sem esperança portanto sempre cómica na sua pretenção a um código estável ou instável. O mais fino dos bons sensos impõe ao artista a sua lei sem a qual se tornará ridículo como um poeta. Deixará de saber o que pode se o prazer o não informar. Nenhum ascetismo seu a não ser o de magicar. Lhe chamo eu quanto ao mágico da sua linguagem. "Tudo se sente como ideia" (Kafka sobre Dostoiewsky, no "Diário") ora isso é magicar. Não é sério como uma aparência mas como "construção da aparência" ou forma inventada.

Com que se parece esse monstruoso efeito o da forma que não logra ser? O da forma deixada incompleta insignificante frustrada imatura? O da juventude quando cria formas e as explica?
Não parece é, é substancialmente (!) humano de um lado e do outro é o sub-humano o homem pré-cultivado na labuta final de fixar-se forma de se acabar de se definir. Ao definir-se morrerá no seu crescimento na sua subjectividade na sua imprecisão "eterna e santa" ("Ferdydurke") se não erro. Eu não defino assim o homem a não ser como tema artístico a quem invento os conceitos-chave tal um filósofo diletante porque me quero antes de mais artista inteiramente problemático. Através de conceitos-chave vejo numa lente na outra não. Por esses óculos que me forjo como num ensaio à la Montaigne. Não sei nada não defino nada ensaio o humano através da linguagem que me articula como ser construído entre o eu e o outro-eu o estranho. Do meu ensaio resulta a clarificação mas não fundamental pois o impulso de me pensar não é meu é do espírito que me surpreende tal uma paixão ou um azar ou uma prótese.

A unidade fundamental do ser humano é a vida ou o motor!
Como espectáculo também nos dá a pensar formas de a classificarmos ou a representarmos ou a memorizarmos nas suas intenções de se dar em espectáculo outro de novas praias ou novos territórios à nossa curiosidade irmã da esperança filhas do tédio netas do capital e das conquistas. . . A vida dá. Isso é espírito que ela é quando a requintamos! Requinte é estilo como tenho dito e é à-vontade. O mais possível de à-vontade para nos exprimirmos sem nos aborrecermos. Se formos escritores há um estímulo pelo menos um o de descobrir as formas chocantes de ter razão sem abusar dela nem dos outros para evitar misturas no nosso habitat de seres diferentes.

Diferentes de quem?
Diferentes de nós ou em evolução e em expansão e em explosão são os artistas somos os artistas. Como tipo histórico e tipo histérico que seja conumível. Um tipo inevitável como a vida dos povos em sorte gregária. Produz-se o marginal ou então aproveita-se ou mesmo inventa-se. Foi a própria mecânica do Industrialismo que produziu originalidade até se confundir acerca da identidade dos seus produtos. Utiliza então críticos e a crítica que a certifiquem sobre o provável e o esclareçam. Estes não acertam senão por arte que lhes escasseia ou a encomendam. Se logram evoluir perdem o crédito e o emprego. A diferença artística é outra coisa na sua forma. É uma receita sem outra disciplina além de viver perto da origem dos estados conscientes. Como um sonho recomendo eu escrever-se. E depois criticar-se até à coragem da própria infalibilidade. Chegar ao fim da sua estima Eu Eu Eu. Como num aniversário do Ecce Homo de Friedrich Nietzsche.

Resgate por loucura assinala a arte e os artistas?
Resgate por prisão do Eu reflexo sem mais substância que a crítica. Aquém da loucura em plena demência cheia de sonhos e de razão. Esta é organon da construção artística que se imponha. Não se imagina Hieronymus Bosch louco ou não-louco com os óleos à la Van Gogh. Isso seria pedante e pouco técnico quanto aos quadros. Confere-se a demência no exagero sensório e na integridade. E os sonhos são os diurnos e os nocturnos.

Violentos e tristes são os sonhos que nos surgem. . .
Não nos afligem senão em imaginação e em sonhos. Se os fixarmos através da lente de uma máquina são como espectros de outro mundo que nos cerca a que assistimos sem nos movermos por qualquer sentimento.

Enforca-se um cão quando nos morde ou deixa-se viver?
Vence-se o medo com o terror ou a força. Não se ganha senão uma trégua na luta universal. Não a piedade mas o terror purgam o medo. A minha compaixão é uma loucura para os homens. Devo escondê-la dentro da minha razão para a julgar. Sofrê-la como espinho na minha carne privada de repouso. Enforca-se um pardal ou um gato ou uma pessoa. Enforca-se um cão e nós assistimos como num espectáculo.

Os sentimentos femininos são menos violentos que os masculinos na sua expressão?
São de defesa não logram impor-se aos tradicionais masculinos. Identificam-se à vítima sem qualquer revolta além das lágrimas. Pensam-se num lugar que não existe o da morte. A violência feminina é uma contravenção própria de Sade mas pode ocorrer a qualquer momento como uma paixão. Como a masculina é uma defesa contra o medo. E a solidão e o tédio e o desespero. A crueldade feminina é tão requintada como a masculina. Sob outra cultura além da aparente constitui uma expressão. Serve-se do homem para o encorajar a enforcar cães ou a mentir ou a embrutecer-se ou a destruir-se. Torna-se um cúmplice dos seus sentimentos os mais malignos. Impõe-se pela forma sobe ao pedestal posto pelo homem à sua vaidade de proprietário convicto e de burguês. Todos a respeitam e ela troça-os na sua impiedade.

Considere-se a paródia para que serve ou que fim serve:
É uma força de vitalidade instantânea como a agressão. Entre essa força e a forma não há escolha. Pode ser paródica a forma escolhida tal na adolescência. O Rei Ubu é uma amostra dos poderes imensos. Como esse personagem pode haver todos os outros personagens. Não na realidade onde há "motivos" mas em sonhos. Teatro de sonhos é a arte como a recomendo. Um guignol barato de grande luxo na sua escolha. De grande indiferença pelos desgastes morais que possa causar. Igual à crueldade do mundo organizado para a matança. O Rei Ubu é um celerado como todos nós. Não tem carácter tem só caprichos e torna-os feitos. É um herói à inteira mercê dos outros todos. É o mito de cada um para o público. Representa o artista na sua mediania de ser aceitável. Mas com rudeza de folião intransigente para as convenções.

Sobrevem o medo quando faltam referências quando há catástrofe. . .
Aí podemos escolher entre repetir formas e criar novidade. Repetir o velho que se estoirou ou personificar ignorância. Morto o pai há o filho e o futuro. Fora de nós e por dentro nos nossos "valores". Viver é crer como dizia Duchamp a um entrevistador. Crer no novo crer em nada que tenha poder. A parte fraca a parte bela a parte má. São três funções que nos deixam atravessar o medo. Nós não enlouquecemos se formos jovens sem quaisquer complexos. Abandonemos os velhos à sua sorte de miseráveis gastos. Recusemos-lhes as guerras para se afirmarem à nossa custa. Façamos-lhes a nossa não por ideais mas pela humilhação.

Não o julgaria assim tão interessado por significantes políticos! Nos seus romances não há moral nenhuma que aguente. Há uma debandada ante a Forma ante as formas. Que sentido fará servir nos jovens contra os velhos?
Servir à distância sem qualquer empenho na sua realização. Não é "pedagogia" nem sequer simpatia é somente Regime. Regime das informações que os jovens nos podem dar. Um material psicológico com melhor qualidade que o envelhecido. O nosso corpo regista o acontecimento dum outro corpo. Idem o espírito e a memória e a razão. Se registarmos velharias seca-se-nos o estilo ficamos uns filósofos. Trata-se dum artista no meu caso que selecciona materiais. Não dum pragmático nem dum crítico mas dum apaixonado. Mas é uma paixão a sua dum exagero razoável. Portanto não alucina nem comete disparates como o cidadão. Alucina por figuras que vai formalizando na sua observação. Não perde contacto com o natural na sua forma. Reabilita o natural contra o cultural do vizinho cidadão. Prega-lhe uma partida sem qualquer interesse além dos próprios. É um egoísta de melhor estirpe que os pragmáticos. Já Hegel distinguia bem a paixão artística das outras. Paixão sem desejo é uma demência que permite raciocinar.

De cabeça vazia que podia Você contra o estabelecido?
Segui-lo até certo ponto depois abandoná-lo sempre à sua sorte. Não o forçar nem me forçar a modificarmo-nos. São dois mundos sem qualquer contemporaneidade cidadãos e artistas. Não se compreendem nem se comparam nem se identificam. Para haver realidade é uma temporalidade desconhecida do cidadão. Vazio é isso de não haver ainda uma realidade. Ou não haver já uma realidade nem a próxima. É um entretempo em que nada pode ainda acontecer... Então espera-nos tudo é a utopia e a razão. Podemos escolher mil formas de encher esse bem-aventurado vazio. O que é insuportável ao cidadão é o maná do nosso artista se este observar uma lei própria. Se se dispuser a combinar acaso com razão pura.

Você fez isso na sua escrita.
E na vida cheguei a fazê-lo através da escrita. Vivi por palavras como um crente dum estilo próprio. Apenas a vida me escapou sempre como um objecto. Só por dentro a podia prever sem a forçar. Os meus acasos foram para mim o poder escrever. Não os facilitei deixei a vida impor-me uma teoria. Parecida com ela a sua teoria e a expressão. Nenhum sujeito fixo nenhum objecto real tudo em coincidência. À la Hume mas sem dogma sem razão filosófica. Por razão artística isto é entendimento formal do confuso. Enten-dimento iguala repetição confuso iguala diferença razão-pura-artística corrige Kant.

Uma outra teoria das Belas Artes para passar tempo?
Teoria e prática isto é forma contra outra forma. Não é passatempo é uma sobrevivência à estupidez ambiente. É um naufrágio com bom desfecho apesar dos ventos. Tem um sentido proporcional à adversidade que a transcende. Simboliza uma resistência mas é mais uma construção. Salva a vida sob uma forma sem tradição artística. É uma inovação nos seus meios e no efeito (desfecho). A morte própria a morte contente é o preceito.

Devemos entretanto "definir" tentando uma clarificação comecemos por "demencial".
É um termo que Deleuze repete ao explicar Hume. É um exagero que quase permanentemente nos mantém ocupados. É uma contracção inseparável dos hábitos das nossas linguagens. Contrai-se o humano a um esquema provisório do espírito. É o que faz o artista quando se defende formalmente. Entra em contradição com a vida que pretende referir. Progride no espírito através da deformação. O seu mundo só pode ser um mundo demencial. Um mundo aquecido pelo afecto frustrado e pela solidão. Para se recompor precisa de inverter a sua direcção. Reencontrar o humano da sua natureza através da razão. Uma razão qualquer pois o egoísmo não tem limites. A paixão artística e a imaginação corrigidas pelo entendimento. O que faz num mesmo projecto das suas obras. Exagera e corrige sem apagar nada mas sim relativizando. Torna o incerto num espelho formal das suas crises. O seu mundo é mundo demencial virado à natureza. Não virado contra mas a favor dum melhor exprimir-se. Limpa a ratoeira das demências tradicionais para respirar melhor. Defini-me uma vez como uma aspirina que faz descontrair-se. Toda a demência do meu mundo é uma mascarada. Em vista dum sucesso das formas que causem surpresa. A minha demência como método artístico reporta-se aos sonhos.

Um freudismo artístico portanto não dogmático nem seriamente científico.
Um automatismo protocolar para uso experimental. Nada de sibilino nem de críptico como o Surrealis-mo. Desfazer as "linhas de associação" mas por dentro e contra Freud. Freud almejava teoria e eu liberto-a de qualquer pragmatismo. Quando num sonho não somos nós mas o destino. É essa necessidade que reproduz razão que nos informe. Uma razão egoísta torno a lembrar-lho é a artística.

Desde há pouco tive um sonho de grande nitidez. Era um avião com muita dificuldade em levantar voo, devia antes passar por uma viela junto a uma ponte.Mas o piloto era um às que inspirava confiança. Aqueles mesmos lugares tenho-os eu frequentado com envergonhada clandestinidade.
Eis o prazer que dá sonhar sem qualquer perigo. Transforma-se os afectos quase todos autocomiserativos em ficções parademenciais (na sua plenitude). E a razão é o prazer de se transformar. Prazer da metamorfose segundo um corpo diferente do kafkeano. Pode ser vil alguma das transformações mas é feliz. Porque é gratuita interior a nós provinda dum acaso. Tudo então depende das nossas relações com o acaso. Da nossa versatilidade. Como sujeitos despreocupados em ser perfeitos. A nossa perfeição se quisermos generalizar é essa. Não ter forma que nos valha perante o acaso.

É um tópico orientalista esse do acaso como pista gnoseológica.
Sempre foi ocidental ou doutro modo sempre compôs cosmologia. Não há cosmologia possível sem ele nem o inverso. Só tem razão de ser cosmológica e nunca absoluta. Refere-se à consciência não à realidade onde não pertencemos. A nossa existência é uma queda diziam os existencialistas. Eu percebi isso desde muito novo por minha conta. Perante tal perspectiva não há hierarquia que se recomende. Para os orientais não seria diferente a solução permitida. Trabalhar a consciência é uma via própria dos homens.

A consciência não espelha a realidade senão por fragmentos.
A consciência carece de um centro que a protagonize. É uma construção sem construtor real mas só fictícia. É uma paixão sem objectos que a satisfaçam. E com obstáculos advindos dela própria são os ídolos. Não a defendem nem a informam sobre si própria. Só a distraem da sua realidade que é semitransparente. Sempre que pretende fixar-se num ídolo a consciência transfere-se. Deixa de aparecer de ser sujeito e torna-se alheia. Fica à mercê de abuso público perde a ingenuidade. O que interessa a um artista é reflectir ingenuidade.Este seu paradoxo é o fundamental no seu métier.

Ingenuidade e razão é uma companhia difícil de sustentar!
É um excesso que nos aproxima do senso comum. A invulgaridade da arte é pressuposta por ignorantes. A mais-valia estética decretada de cima é um abuso. Fabricada pelos cidadãos e pelos países e pela cultura. Todo o aparato das formas artísticas é uma estupidez. Foi preciso Duchamp para o desmistificar com plena argúcia. Depois de Duchamp a razão artística é um instrumento. Como um electrodoméstico tem um programa que a ordena. Podemos programá-la criticamente ou usá-la aquém em usos restritivos. A ingenuidade conquista-se através da razão e ao contrário. Combinam-se assim excelentemente na mediocridade essencial de cada arte. Só o público não sabe disto sendo gregariamente masoquista. Vê na dificuldade uma proeza formal não um efeito. Condiciona-se pela cultura em que colabora com vaidade cara. Quanto mais inteligente tanto mais estúpido como eu afirmei. É uma verificação relativa à cultura nos seus mecanismos.

Os mecanismos culturais são tão inevitáveis como os económicos. Arte é publicidade como me dizia um professor universitário...
É um juízo típico de um professsor em cada um. O burguês arrivista diz que arte é o agradável (lhe muito timidamente). O aluno diz que arte é publicidade do professor. O burguês filho repete o pai e afirma nuances. A penúria universal é porém que nenhum arrisca duvidar. Se duvidasse aí duvidava no demais suspendia o fornecimento. Fornecimento de cultura, e de sentimentos e de mercadoria. Uma greve universal que se espera por cada catástrofe. Se não ocorre é por nostalgia dum ignóbil passado. Daí o novo ser a energia que permite pretender. Uma energia inviolável capaz das injustiças e das vitórias súbitas antitédio.

O seu mundo é por isso cómico ou condicionado por forças mais "adultas"?
O meu humor nasceu da adolescência nas farsas domésticas e nas mistificações. Primeiro em companhia e depois só descobri uma distância para com a realidade. Nada é culturalmente o que pretende, daí o falsificador. De tão universal o cómico elementariza-se como uma luz. Para mim a beleza é cómico pois é incompleta. Como a juventude a beleza carece de uma definição. Vem no fulgor com a verdade que faz sorrir. O humor negro é a evidência que nos espera. Nos lugares extremos que vamos encontrando luz o sarcasmo. No meu inferno não há razão para outra luz. Sarcasmo ou dó escolhi o primeiro no seu trágico.

O seu inferno como lhe chama não é exagero?
É um paraíso corrompido por nós a cada momento. Não é exagero é uma inadaptação às formas humanas. Reina a suspensão entre o sem valor e Deus. A divindade desloca-se para o sem valor este engrandece-a. Torna-a então viva num novo culto que ensaia forma. Todo o exagero provém do falso que busca resolver-se. Tudo no homem depende das relações com a forma. Da não naturalidade ante a forma subsiste o infernal.

Não acha pouco a condição humana encarada por aí?
Será pouco-nada perante a ideia de si da humanidade. Mas é tudo o que preocupa o homem real. Os seus papeis entretêm-lhe a vida íntima e pública. São uma natureza que se fabrica paralela à humana. É o inter-humano é o sub-humano o humano real. Não o outro o dos valores e das formas. Esse é imposto vem de cima vem de "Deus". O que depende da natureza humana fixada como a priori. O humano real debate-se com sofrimento contra mil formas. Que todas elas são por outrem jamais por ele. O mundo é-lhe estranho na sua origem mais humana. Há um primitivismo insatisfeito nos homens que os atormenta. Não se esquecem nunca completamente dele apesar do progresso. Assim como o não recuperam eliminando simplesmente o progresso. Devem encontrá-lo entre o intervalo de qualquer das formas. Por uma incerteza e uma leveza que permitam ser. O meu problema assemelha-se ao Existencialista mas sem ideais.

Há um a priori na sua visão é a dúvida.
Refere-se aos conceitos não à intimidade que eles favorecem. São conceitos artísticos na sua testagem através de um método. A minha dúvida é a natural sem qualquer generalidade. Nasce da desconfiança com que encaro o ser humano. Não o julgo nem a priori nem a posteriori... Julgo-o por mim e essa deslocação é a demência. Mas seria impossível encontrar novos conceitos através dos outros. A demência experimental não é experimentada senão como ensaio. Ensaio de forma e de teoria e de romanesco. Criam-se os personagens de que necessito para recuperar razão. Esses meus personagens agem segundo leis que eu desconheço. Posso pensar nelas depois de libertá-los na sua estranheza. São a teoria mas nascem dentro dos personagens. Tornam a vida como um romance sem drama previsto. É isso comédia o não haver mais uma hierarquia.

Uma teoria cómica não é normal nos hábitos retóricos.
Porque o cómico foi devidamente censurado pela razão grega. Eu li Nietzsche como um moralista de nível superior. O Alegre Saber pertence à comédia observada a vivo. Sem o ênfase das grandes construções que Nietzsche pretendesse. O cómico ultrapassa a razão grega ou qualquer outra. Inverte a hierarquia invade a cena e é razão. É razão outra ou razão louca na sua aparência. Mas um sentido "oculto" nessa aparência constitui-o em sabedoria. Os seus argumentos são superiormente razoáveis porque são acções.

Vem de Balzac ou de Dostoiewsky esse seu romanesco.
Vem de Dostoiewsky mas sem dó nem o Cristianismo. A libertação dos actos é moderna vem de Dostoiewsky. Há uma multidão de acções possíveis por cada personagem. A sua limitação deve dar ideia desta racionalidade aproximativa. Não são reais os nossos actos são apenas gestos. Não se parecem nem connosco nem com os modelos.

Esta nossa entrevista toma uma forma de panfleto usado.
É conveniente usar as formas gastas para insinuar novidade. O que pretende obter-se nesta entrevista é uma teorização. Realço as coordenadas do meu mundo demonstrando-lhe a razão. É um problema impossível de captar num tratado público. Prefere-se a entrevista para se proteger uma mínima espontaneidade. Numa outra forma eliminar-se-ia o Sujeito que é protagonista. A entrevista é a forma teatral do senso comum. Não causa estranheza a não ser que nos abisme. Deixaremos de ver-nos e passamos a raciocinar muito pouco. Fora dessa hipótese uma entrevista qualquer é uma conversa. No nosso caso procedemos com método som ensaio som. É uma oralidade com ninguém vivo à vista. Falamos por dentro das nossas palavras até nos bastarmos.

Fale-me de "A Pornografia" seu romance preferido se não erro.
Há que relê-la com mil pausas. Se você soubesse algo de Polaco notaria a diferença. Não se diz numa outra língua uma tal experiência. Depois do "Trans-Atlântico" que é transposto "A Pornografia" é directo. Eu por sujeito ganhara uma confiança próxima dos clássicos. Fruiria a maturidade real em mim estranha aos outros. Eu sentia-me velho e era capaz de não parecê-lo. Tratava-se de uma aventura de meia-idade com desespero mítico. Os meus mitos os meus sonhos postos em história. Perto da História e da Natureza entre os Polacos. Quanto ao enquadramento é de um romance de monotonia provinciana. Em qualquer subcultura prolifera esse género voluntário ou atávico. Para o elevar a uma generalidade que fui entrevendo: insinuei-lhe algumas pulsões secretas e inconfessáveis que julgava ter descoberto. Desde o "Ferdydurke" o meu mundo era uma Provocação. Do Velho pelo Jovem em luta constante pela forma. Que o Jovem possa seduzir com alguma consciência que o constitua: uma consciência original idêntica ao corpo e identicamente inocente. "A Pornografia" atira assim para o drama gnóstico literariamente moderno. Caracteriza os demiurgos os seres criados e alguma solução.

Sobre "A Pornografia" e enquanto a leio com mil pausas. A cena da Missa é um Degelo.
Exactamente é isso não por teoria mas por intuição. Os gestos estereotipados do padre "divino" os demais gestos perdem o significado se forem vistos sem teoria terrestre. Como fez Copérnico há que viver doutra perspectiva. Vistos num universo os gestos humanos adquirem outra animação. Capaz de tudo sentia-se o narrador chegado ao extremo. Num espaço negro cintilava a luzinha de outra razão. Em que tudo tinha outra significação embora fosse incompleta. Abolido o "teórico de regime" isto é Deus ficava o humano. Ficava a atmosfera de pesadelo grotesco num perpétuo vestíbulo.

Refere-se às teorias ou não se refere a nada?
Refere-se à teoria como uma sombra dum outro conhecer. O conhecimento sensível contra o inteligível é aqui iniciado. Não são separados os dois níveis invertendo-se-lhes a hierarquia. Restaura-se o Empirismo e a Razão tem outras vistas. Vistas de um Rei num domínio único o dum Eu.

O sensível rejuvenescido pela sua paixão intempestiva por dois (jovens).
Por outra via decerto menos directa a de um companheirismo. O meu companheiro naquela viagem pornográfica determina-me a Humanidade. É o "intercessor" que me permite somar uma razoabilidade. O adulto Frederico é a consciência que me reflecte (?). Que me reflecte que eu reflicto que nos reflectimos. A dois sós somos a Humanidade desvendando o informe. Os (Jovens) encantadores são os pólos de uma reanimação. São nossos "intercessores" na aventura rejuvenescedora das mentes adultas. Obedecem-nos como criaturas do nosso desejo inábeis e incertas. O seu encanto vive por nós e reclama frustração. Encanto do imperfeito para o adulto vivendo por valores. E por simetria os dois (jovens) ocasionam dois adultos.

Uma sublime redenção entre os corpos e os crimes é o panorama psíquico mais realista da Polónia trucidada.
Numa leitura política muito menos superficial que o livro. Há que conferir as forças romanescas antes do mais. E podem bastar para o entendimento as sugestões romanescas. Há uma mitologia num romance conseguido que dispensa comentário. Provoquem-se os acontecimentos se carecerem deles para serem escritores. A sua consciência de coisa escrita não os transcenderá. Eles são signos de um espírito povoado de direcções. Linhas de força submetem o espírito e a realidade. O comportamento segue-as porque não pode proceder fora delas. O enredo porém não é lógico nem sobretudo teológico. Daí a irracionalidade ser o tónus das novas intrigas. Forrados com crianças nos seus avessos os meus personagens. Os de "A Pornografia" são sobretudo adultos exaustos de serem-no. Só dois deles conseguem a saída dos lugares lúgubres. Para o atingirem utilizam a imaginação inferior aos compromissos. Apoiam os compromissos como uma condição à sua evasão. Quanto a esta utiliza os ingredientes da própria realidade. Que esta aconteça em plena inocência e permita iniciação.

Um sentido religioso acompanha o projecto da sua reanimação. Não lhe parece suspeito de compromisso com o Catolicismo?
O catolicismo é burlesco e atrevido como eu. A sua moral é porém delirante quanto ao fundamento. Na minha religião privilegiam-se a consciência e o corpo. Não há lugar para nenhum Deus que nos informe. E o Cristo é uma vedeta de outras eras.

Mas o jovem precisa do velho para se reconhecer. O corpo e a consciência intensificam-se pela sua negação.
O que problematizo é essa relação entre duas forças. Qual a fórmula que mais compreende a ambiguidade humana. Iniciação à Forma e à Imaturidade é a Arte. Não vejo outra das nossas instituições capaz de substituir-se-lhe.

Donde o título desta nossa entrevista com que sentido?
É um título tendenciosamente surrealista plural e anónimo sucessivamente. "O mundo demencial de Witold Gombrowicz ou a razão recuperada por sonhos" soa a magazine cheio de informação e também ignorância. Sem dúvida que o meu mundo pode parecer demencial. Se não fosse simbólico nem cifrado careceria de sentido. Sendo-o não carece de mais nada exterior à construção. A 2ª parte do nosso título também é informático-néscio. A razão recuperada é razão perdida neste preciso caso. A razão (artística) idêntica aos sonhos não tem sujeito. Este só existe através da obra e sempre perplexo. Ainda o Édipo mas sem tragédia e sem pais. Só o enigma das formas translúcidas enquanto metáforas da realidade. Interior ou exterior, interior e exterior, interior=exterior. Como num templo de grandes dimensões a razão hesita. Não se recupera através dos sonhos apenas recupera sonhos.

Que diferença entre si e o Carlo Emilio Gadda!
Ambos ridicularizamos bastante mas os objectivos são muito diferentes. A minha polonidade não tem contrapeso na magnificência dele. Essa consciente humildade é uma força inédita na literatura. Talvez Rabelais ou Montaigne ou Duchamp se lhe comparem. Eu sou casuísta e o Gadda um engenheiro brilhante. A minha espiritualização é desnecessária no mundo de Gadda. Jamais eu fiz algum processo verbal como uma finalidade. Em mim a forma precede a função sem causalidade lógica.

E William Burroughs que lhe parece valer como escritor?
Parece-me um humorista com uma moralidade pouco convencional. Comparada à minha é uma moralidade muito pouca reservada. É um rufião com hábitos insanos e saúde excelente. A escrita dele repele a forma como uma excrescência. Ora eu considero-a antes um valor sem qualquer valor. Não a dissipo nem a protejo pois pretendo libertá-la. s

Álvaro Lapa
Licenciado em Filosofia.
Pintor-Escritor
Lecciona Estética na FBAUP desde 1976.

anteriorpróximoíndice