Perante a complexidade de circunstâncias que hoje conferem o estatuto de "arte" aos objectos, e sendo meu objecto de estudo o desenho, convém desde já alertar que, para melhor entender o desenrolar das ideias expostas, será necessário abstrairmo-nos da teia de conceitos artísticos que o envolvem e reduzi-lo, por assim dizer, apenas a uma acção ensinável, independente do domínio da Arte.
Caso me embrenhasse na articulação dos inúmeros conceitos artísticos relativos ao desenho, facilmente cairia nas contradições que daí advêm. Como tal, desenho será aqui entendido de uma forma abrangente, de modo a excluir qualquer possível tendência do leitor a rever-lhe um estilo artístico.
Assim, desenhar será a produção de marcas feitas pelo homem sobre superfícies. Dentro desta noção, obviamente cabe a possibilidade de qualquer humano ser capaz de o fazer. Contudo, as instituições responsáveis pelo ensino do desenho, ao existirem, comprometem-se, à partida, a dar algo aos alunos que não está directamente acessível àqueles que não o são. O aluno da Academia produz marcas submetidas a um determinado conceito do que devem ser essas marcas.
Aquele que não o é, também produz essas tais marcas, todavia sem a necessária obrigatoriedade de lhes estabelecer o que devem ser, ou seja determinar-lhes um fim.
Numa Academia de desenho, pretende-se essencialmente aprender a desenhar; sempre que se utiliza o termo "aprender", pressupõe-se a existência de um conceito da actividade que se aprende, de uma iniciação e de uma consequente e morosa tomada de experiência, que passa necessariamente pela acção.
Neste seguimento, é importante introduzir o conceito de exercício, por estar intimamente ligado à aprendizagem desta actividade.
O exercício deve apenas ser uma inesgotável forma de aquisição de experiência, e não, como sucede muitas vezes, dar por terminada a experiência quando se acaba o exercício. Durante as aulas, são-nos propostos trabalhos a que impropriamente se chama exercícios, pois parece que a importância que se lhes dá ultrapassa tal designação. A comprová-lo está o facto desses mesmos exercícios virem a constituir material para as avaliações. Soa despropositado o aluno de piano ser avaliado com as escalas que faz todos os dias.
É da responsabilidade dos pedagogos elaborar um método de aprendizagem eficaz, compreendendo a eficácia como sendo a concretização dos fins a que se propõe; convém os primeiros exercícios não constituírem, à partida, um bloqueio, que dificulte a execução e a compreensão (muitas vezes isto está na origem do desânimo por parte do aprendiz). Da mesma forma, não se pede ao que se inicia na escrita que comece por construir frases.
O desenho como acção humana apresenta-se sob as mais variadas formas, assim como a atitude para com ele. Mesmo considerando-o na esfera artística, tem diversas e interessantes interpretações; seria igualmente interessante que aqueles que se ocupam do desenho como prática, praticassem, e que o facto de os desenhos virem a estar inseridos no meio artístico passe a uma consequência e não a um fim procurado.
"Creio que é dada demasiada importância às pinturas e aos desenhos feitos nas escolas de arte. Se forem a um professor de canto, ele dar-vos-á primeiramente exercícios de respiração e não uma canção. Ninguém espera que cantem estes exercícios perante uma audiência. Nem tão pouco se espera mostrar como desenhos o resultado dos primeiros exercícios.
"Há uma grande diferença entre desenhar e fazer desenhos. As coisas que farão - continuamente - são unicamente prática. Apenas devem representar o resultado de um esforço, o fruto da vossa actividade mental e física. O progresso ficará marcado, não no papel, mas no conhecimento com que olharão a vida à vossa volta".1
"Desde os seis anos que eu tinha a mania de desenhar as formas das coisas. Aos cinquenta publiquei uma infinidade de desenhos; mas tudo o que eu fiz antes dos setenta não merece ser levado em conta. Aos setenta e três, aprendi um pouco sobre a verdadeira estrutura da natureza, dos animais, plantas, árvores, pássaros, peixes e insectos. Portanto, quando tiver oitenta devo ter feito ainda mais progressos; aos noventa conseguirei penetrar no mistério das coisas; aos cento e dez tudo o que eu fizer, seja um ponto ou uma linha, estará pleno de vida.
"Peço àqueles que viverem tanto como eu que vejam se consegui ou não cumprir as minhas palavras".2

1 - KIMON NICOLAIDES - The Natural Way to Draw 2, USA, 1941
2 - HOKUSAI (1760 - 1849)

Ricardo Jorge Bastos Pereira Leite
Data de nascimento 21.09.70
Aluno da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, frequenta actualmente o terceiro ano do curso de Pintura.


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